O sector empresarial como uma força de transformação social

A realização dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) exige recursos diversos e inéditos – públicos e privados, nacionais e internacionais para serem atingidos de uma forma global. Neste contexto, a Agenda 2030 destaca o papel central que pode cumprir o sector privado, dada a sua relevância económica: hoje as empresas são responsáveis por 60% do Produto Interno Bruto (PIB), por 80% dos fluxos de capital e 90% dos empregos nos países em desenvolvimento.

A Agenda 2030 reconhece, desta maneira, a importância do sector privado no processo de desenvolvimento sustentável e apela a todas as empresas para que apliquem a sua criatividade e inovação à resolução de desafios de desenvolvimento sustentável.

Os empresários, as PME e o sector privado, em geral, aparecem assim como agentes fundamentais do crescimento económico sustentável e sustentado e como catalisadores de transformações sociais positivas junto com os outros actores-chave do desenvolvimento. Com a Agenda 2030, o sector privado converte-se numa parte fundamental da solução.

O desenvolvimento sustentável como oportunidade e não só como compromisso

Para o tecido empresarial, os ODS não devem ser vistos apenas como um compromisso (exigível, em qualquer caso) mas também como uma grande oportunidade. Os ODS podem oferecer às economias, como a de Moçambique, importantes possibilidades para que o sector privado abra novas oportunidades de mercado e atraia investimentos externos.

Mas para que as empresas contribuam realmente para uma transformação positiva é necessária uma reconsideração fundamental sobre o papel das mesmas na sociedade. Durante muito tempo, o impacto social ou ambiental positivo e os resultados financeiros positivos foram considerados dois componentes separados, sendo geralmente aceite que era possível atingir um ou outro, mas jamais ambos ao mesmo tempo. Para que os ODS tenham sucesso é necessária uma mudança desta mentalidade.

Em vez de adoptar uma abordagem excessivamente focada no curto prazo e nos lucros, as empresas têm a oportunidade de alinhar as suas estratégias comerciais centrais com o desenvolvimento sustentável e trabalhar com outros para conseguirem uma mudança ao nível do sistema e para uma economia mais humana.

Trata-se de perceber que, por trás deste compromisso, deveria estar a noção fundamental de que a saúde e a prosperidade das empresas e das sociedades são interdependentes a longo prazo.

Impulsionando o compromisso empresarial com os ODS

Poderia considerar-se, ao nível do país, uma estratégia sustentada em várias linhas de actuação interligadas que impulsionem sistematicamente este importante compromisso empresarial com os ODS:

  • Sensibilização: para ajudar as empresas a entender as oportunidades dos ODS.
  • Formação e criação de competências: centradas em princípios de desenvolvimento sustentável.
  • Reconhecimento da liderança: que sirva de inspiração através das boas práticas empresariais.
  • Diálogo político: que permita envolver empresas responsáveis nos planos de acção e nas políticas nacionais de ODS.
  • Parcerias estratégicas: com várias partes interessadas para facilitar a colaboração e a acção colectiva.

Evidentemente, as empresas a nível individual devem também empreender o seu próprio percurso neste sentido. De facto, um dos grandes desafios por parte do sector privado em relação aos ODS é ultrapassar a lógica de reduzir esta tarefa a uma questão do departamento de Responsabilidade Social Empresarial (RSE), já que se trata de uma aposta que deve ser liderada pelos próprios empresários e cargos dirigentes, incluindo-a no modelo de negócio e integrando-se em todos os processos da cadeia de valor.

Então, quais podem ser, em concreto, essas contribuições positivas das empresas para os ODS?

Acções transformadoras concretas

Em termos gerais, não há dúvida que as empresas podem contribuir com soluções inovadoras e mobilizar recursos, desenvolvendo por exemplo modelos de negócio sustentáveis como a economia circular ou os negócios inclusivos, ou incentivando inovações tecnológicas que acelerem o cumprimento da agenda, aproveitando o potencial da era digital, da Internet, da inteligência artificial, do Big Data e do Blockchain.

O oitavo ODS, em particular, que refere a criação de emprego digno e a promoção do crescimento económico, é uma clara prioridade para toda a África Austral e igualmente para Moçambique. Neste sentido, apoiar condições de trabalho digno para todos os empregados da empresa, incentivar os próprios fornecedores a fazer o mesmo, educar e capacitar a força de trabalho, investir em I+D e apoiar negócios em crescimento compatíveis com o desenvolvimento sustentável são acções empresariais que contribuiriam para avançar no cumprimento deste objectivo.

Em todos e cada um dos ODS existem acções que as empresas podem ter em consideração e pôr em prática. Claro que estamos perante uma agenda sem precedentes para que as empresas possam contribuir com inovação e soluções, arvorando-se em principais actores da criação de alianças.

É por tudo isto que os ODS têm de se converter num quadro prioritário de referência também para o sector privado e para o conjunto do tecido empresarial no mundo, em África e Moçambique. Desta forma, o sector privado será capaz de explorar todo o seu potencial como factor e força impulsionadora da transformação social.